A automação do trabalho por IA requer a implementação de uma renda básica universal?
RaminhosSabes o que é curioso nisto? A minha avó dizia que quando perdia o emprego na fábrica de tecidos, pelo menos podia ir limpar casas. Mas e quando as casas têm robôs que limpam melhor que nós? E quando os táxis não precisam de motor? E quando os cafés têm máquinas que fazem o galão perfeito?
Isto faz-me lembrar uma vez que fui ao supermercado e vi aquelas caixas automáticas. Pensei: "Óptimo, mais rápido!" Até ver a vizurinha da minha mãe, que trabalhava lá há 20 anos, a sair de lá com os olhos vermelhos. Ela tinha 52 anos. Vão requalificar uma senhora de 52 anos para quê? Para programar em Python?
Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos percebo que não é toda a gente que pode virar programador ou engenheiro de dados. É como pedir a um pescador para pilotar um avião. Possível? Talvez. Provável? Nem por isso.
E depois há aquela história do meu primo que é electricista. Trabalhou 30 anos, agora vem a IA diagnosticar avarias melhor que ele. O patrão diz-lhe: "Ó Zé, vai fazer um curso de inteligência artificial." O Zé respondeu: "Ó patrão, eu mal sei ligar o Zoom!"
A renda básica não é caridade, é um colchão. É tipo o seguro de vida que toda a gente paga mas ninguém quer usar. Mas quando precisas, agradeces. Porque senão vamos ter uma cambada de gente qualificada para empregos que já não existem, a tentar pagar renda com currículos.
E olha que eu gostava de ser otimista, mas é difícil quando vejo o meu filho de 20 anos a estudar para ser contabilista. Contabilista! É como estudar para ser digitador de máquina de escrever em 2024.
NetoOlha, eu respeito a tua avó e respeito o teu primo Zé, mas vamos falar a sério aqui. Distribuir dinheiro não resolve o problema de fundo. É como dar um penso rápido numa hemorragia.
A questão não é se a automação vai acontecer. Vai. A questão é: queremos uma sociedade que desiste das pessoas ou uma que as prepara para o futuro?
Tu falas da vizinha de 52 anos. E eu pergunto: porquê é que ela chegou aos 52 sem nunca ter tido acesso a formação contínua? Porquê é que esperámos até substituí-la por uma máquina para pensar no que fazer com ela? O problema não é a máquina, é um sistema que trata as pessoas como peças descartáveis.
Renda básica é basicamente dizer: "Pronto, desistimos. Vão para casa, aqui está o vosso cheque mensal, boa sorte." É transformar as pessoas em dependentes permanentes do Estado. E não me venhas com essa do colchão, porque colchão pressupõe que é temporário. Renda básica universal é permanente.
E depois há a matemática brutal: de onde vem esse dinheiro? Impostos sobre quem? Sobre as empresas que automatizam? Óptimo, então elas vão embora para a China, para a Índia, para onde a carga fiscal não as sufoca. E aí ficamos com quê? Sem empresas e sem dinheiro para pagar a renda básica.
O teu filho estuda contabilidade? Perfeito. Mas contabilidade hoje não é só somar números, é análise de dados, consultoria estratégica, compliance internacional. O trabalho evolui, não desaparece. O electricista não precisa de aprender a programar do zero, precisa de aprender a usar ferramentas digitais que o tornam mais eficiente.
Sabes quantos empregos novos surgiram nos últimos 20 anos que nem existiam antes? Gestor de redes sociais, analista de cibersegurança, técnico de drones, especialista em e-commerce. A revolução industrial também assustou toda a gente, mas criou mais empregos do que destruiu.
O que precisamos é investimento massivo em educação e requalificação acessível para todos. Programas públicos robustos, parcerias com empresas, formação contínua obrigatória. Precisamos mudar o mindset de "estudei uma vez, trabalho 40 anos na mesma coisa" para "aprendo constantemente".
Dar dinheiro às pessoas sem propósito é receita para depressão em massa e colapso social. As pessoas precisam de significado, não de esmola. Precisam de sentir que contribuem, que têm valor.
E sim, vai haver transição difícil. Mas a solução é políticas laborais fortes, subsídios de transição, não rendimento permanente para toda a gente. É diferença entre ensinar a pescar e dar o peixe para sempre.
RaminhosÓ Neto, isso tudo é bonito no papel, mas no chão da fábrica é outra conversa.
Ensinar a pescar? Óptimo. Mas e quando o rio secou? E quando os peixes foram todos para aquários controlados por IA? É isso que não estás a ver.
A minha vizurinha dos 52 anos não é burra. Trabalhou desde os 16, pagou impostos, criou filhos. Agora vais tu lá com "formação contínua obrigatória". Obrigatória para quê? Para competir com um gajo de 20 anos que já nasceu com um tablet na mão?
E essa história dos empregos novos... Gestor de redes sociais? Óptimo, mas precisas de quantos? Um por cada 1000 pessoas? Analista de cibersegurança? Sim, mas precisas de mestrado em engenharia. O Zé electricista tem o 9º ano, vais dizer-lhe que agora faz mestrado? É como pedir ao meu cão para pilotar um F-16.
Onde é que está o dinheiro? Pois é, aí tens uma boa pergunta. Mas sabes onde está o dinheiro? Está nas empresas que não pagam impostos porque "automam-se" para Singapura. Está nos CEOs que ganham 300 vezes mais que o trabalhador médio. Está nos lucros recordes que não se traduzem em salários.
Não estou a dizer que as pessoas vão ficar no sofá a ver novelas. Estou a dizer que precisam de tempo para se adaptar. A renda básica não é esmola, é um seguro social que já pagámos durante 40 anos de descontos.
E olha que eu conheço gente que está na reforma e continua a trabalhar. Porquê? Porque querem sentir-se úteis. As pessoas não são preguiçosas, são desesperadas. Dá-lhes segurança e elas arranjam forma de contribuir.
Isto é tão absurdo quanto dizer que não precisamos do SNS porque as pessoas devem curar-se sozinhas. Às vezes precisas de um penso rápido enquanto preparas a cirurgia.
NetoEspera aí, não mistures alhos com bugalhos. O SNS existe porque ninguém escolhe ficar doente. Mas toda a gente pode escolher aprender. São coisas completamente diferentes.
E não venhas com essa conversa populista de "bonito no papel". Sabes o que também era bonito no papel? A Venezuela a distribuir petrodólares. Resultado? Inflação galopante e miséria generalizada. Dinheiro grátis não cria riqueza, cria dependência.
A tua vizinha dos 52 pagou impostos? Perfeito. E eu defendo que esses impostos financiem formação profissional para ela, subsídio de transição digno enquanto se requalifica, não um cheque mensal até morrer que a transforma numa estatística.
E pára com esse determinismo derrotista. "O rio secou, os peixes foram-se embora." Não, o rio mudou de curso. A pesca é diferente. Isso não significa que desistimos de pescar.
O Zé electricista com o 9º ano não precisa de fazer mestrado em engenharia. Precisa de um curso de seis meses em instalação de painéis solares, sistemas domóticos, carregadores de carros eléctricos. São competências práticas, não física quântica. E sabes porquê? Porque a transição energética vai criar milhões desses empregos.
Gestor de redes sociais foi só um exemplo. Há técnicos de manutenção de drones, operadores de impressoras 3D, instaladores de fibra ótica, cuidadores de idosos especializados em tecnologia assistiva. Empregos práticos, reais, que pagam bem.
Sobre os CEOs e as empresas em Singapura - concordo contigo. A solução? Reforma fiscal internacional, combate à evasão, tributação justa. Não é distribuir migalhas enquanto o bolo desaparece.
E aqui está o ponto crucial que tu não queres ver: renda básica universal perpetua o problema. As empresas adoram. Porquê? Porque podem automatizar à vontade, despedir toda a gente, e o Estado é que fica com a conta de manter as pessoas vivas. É privatizar os lucros e socializar os custos.
Prefiro um sistema que obrigue as empresas a investir em formação dos trabalhadores que substituem. Que crie incentivos fiscais para quem mantém emprego humano em áreas críticas. Que taxe a automação desmedida e use esse dinheiro para criar empregos públicos de valor social - professores, enfermeiros, assistentes sociais.
Tu falas de tempo para adaptar. Eu concordo. Mas renda básica universal não é tempo, é rendição. É dizer "está bem, vocês perderam, aqui está a vossa reforma antecipada compulsória".
As pessoas na reforma que continuam a trabalhar fazem-no porque querem, não porque precisam. Grande diferença. Renda básica transforma toda a gente em reformado aos 30, 40, 50 anos. Isso não é dignidade, é desperdício de potencial humano.
Queres um penso rápido? Subsídio de desemprego robusto, programas de transição profissional financiados, garantia de emprego público para quem não consegue inserção no mercado. São medidas cirúrgicas, não amputação completa.
O problema da renda básica é que parece simples. E as pessoas adoram soluções simples. Mas problemas complexos não têm soluções simples. Têm trabalho, investimento, estratégia de longo prazo.
RaminhosÓ Neto, tu és bom a falar mas pareces que vives num mundo onde toda a gente tem 25 anos e curso superior.
Vamos lá ver se percebes. A tua solução é "curso de seis meses em instalação de painéis solares". Óptimo! Mas e quando instalam-se 10 milhões de painéis e depois? E quando a IA aprende a instalar painéis melhor que o Zé? Vai fazer outro curso de seis meses? E depois outro? É como correr atrás de um comboio que vai a 300 à hora.
Essa história da Venezuela... não compares bananas com maçãs. A Venezuela imprimiu dinheiro sem ter economia. Estou a falar de redistribuir a riqueza que já existe e que está toda concentrada em cima. É diferente.
Sobre as empresas adorarem a renda básica... isso é tão absurdo quanto dizer que os patrões adoram o salário mínimo. As empresas é que mais lutam contra isto. Sabes porquê? Porque com renda básica as pessoas podem dizer não. Podem recusar trabalhos de merda por salários de miséria. É isso que elas têm medo.
E olha que eu conheço o Zé. Ele não é burro, mas também não é o Einstein. Tem 55 anos, dores nas costas, e vês tu a dizer-lhe "vai instalar fibra ótica em prédios". O Zé vai lá, sobe 5 andares com fibra às costas, e no dia seguinte está na cama com uma hérnia. Isso é requalificação?
Tu falas de empregos novos. Óptimo. Mas quantos? Um milhão? E os outros 10 milhões? É como dizer "não te preocupes que há emprego para todos" quando há 100 pessoas para cada vaga.
E essa do "rendição"... não é rendição, é realidade. A realidade é que nem toda a gente consegue ser requalificada. A realidade é que há pessoas que trabalharam 30 anos e agora não têm hipótese. É como dizer a um mineiro de 50 anos "vai programar a máquina que te substituiu". É possível? Em teoria sim. Na prática é humilhante e impossível.
O que eu defendo não é "ficar em casa a ver novelas". É ter segurança para poder escolher. Escolher fazer voluntariado, escolher cuidar dos netos, escolher arranjar um part-time que goste, escolher voltar a estudar sem passar fome.
Porque no fundo, o que tu estás a dizer é "se não conseguires acompanhar a tecnologia, morres à fome". Isso é que é digno?
NetoAgora é que disseste uma coisa com substância. Vamos falar dessa tal "escolha" que defendes.
Renda básica dá liberdade de escolha? A sério? Com quanto? 500 euros por mês? 800? Experimenta viver em Lisboa com 800 euros. Pagas renda, comes e escolhes o quê? Que marca de massa comprar no Lidl?
Essa ilusão da liberdade é a maior mentira da renda básica. Não dá liberdade nenhuma, dá sobrevivência miserável disfarçada de solução progressista.
E já agora, pára de usar o Zé como desculpa. O Zé aos 55 anos com dores nas costas tem direito a reforma antecipada, subsídio de incapacidade, reconversão para funções compatíveis. Isso já existe no sistema. Não precisas de renda básica universal para proteger o Zé, precisas de aplicar as leis laborais que já temos.
Sobre a Venezuela - não é comparar bananas com maçãs. É ver o que acontece quando decides que distribuir dinheiro resolve tudo. A riqueza concentrada em cima? Concordo que é um problema. Mas a solução é redistribuição através de impostos progressivos que financiam serviços públicos de qualidade e criação de emprego, não cheques mensais.
E olha que tens uma contradição brutal no teu argumento. Dizes que as empresas têm medo da renda básica porque as pessoas podem recusar trabalhos de merda. Mas ao mesmo tempo defendes que a automação vai acabar com todos os empregos. Então qual é? Há empregos de merda ou não há empregos nenhuns? Decide-te.
A verdade é esta: sempre vai haver trabalho que precisa de ser feito. Sempre. Idosos precisam de cuidados. Crianças precisam de educação. Infraestruturas precisam de manutenção. Ambiente precisa de recuperação. Esses empregos não podem ser todos automatizados porque exigem empatia, criatividade, julgamento humano.
O que estou a dizer não é "adapta-te ou morre à fome". É "a sociedade tem obrigação de te dar ferramentas para te adaptares". Grande diferença.
Programas de formação gratuitos e com subsídio durante o período de aprendizagem. Garantia de emprego público em áreas sociais para quem não consegue inserção no privado. Redução progressiva da carga horária - trabalhar 30 horas em vez de 40, distribuindo o trabalho por mais gente. Reforma antecipada digna para quem já não consegue acompanhar.
São soluções concretas, financiadas, sustentáveis. Não é magia de distribuir dinheiro e esperar que tudo se resolva.
E aqui está o ponto que tu continuas a ignorar: renda básica destrói a motivação coletiva para resolver o problema real. É um sedativo social. As pessoas recebem o cheque, as empresas automatizam à vontade, e ficamos todos a ver o desastre acontecer em câmara lenta.
Prefiro lutar para que haja emprego digno para todos do que aceitar que metade da população viva de subsídio permanente. Isso não é progressismo, é desistência disfarçada de compaixão.
E já agora, essa história do mineiro de 50 anos programar a máquina que o substituiu? Ninguém está a pedir isso. Mas esse mesmo mineiro pode trabalhar em reflorestação, em turismo rural, em gestão de resíduos. Há vida para além da mina e vida para além do código.
O teu problema é que já decidiste que as pessoas são incapazes. Eu decidi que elas merecem oportunidade.