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A linguagem neutra é uma ferramenta importante para a inclusão de gênero?

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A linguagem nunca foi apenas sobre comunicação - foi sempre sobre poder. Quem é visto, quem é ouvido, quem é reconhecido. Quando falamos de linguagem neutra, estamos falando de dar voz a quem sempre foi silenciado pelo binário de gênero.

Eu entendo que mudanças linguísticas podem assustar. Mas a língua portuguesa já mudou tantas vezes ao longo da história - e sempre para incluir mais pessoas. O que propomos hoje é simplesmente o próximo passo nessa evolução natural.

Conheço pessoas não-binárias que sofrem diariamente por não se verem representadas na linguagem. Isso não é questão de gramática - é questão de dignidade humana. Quando usamos "todxs" ou "todes", estamos dizendo: você existe, você importa.

A resistência à linguagem neutra muitas vezes vem do conforto de quem sempre se viu representado. Mas progresso exige que saiamos da zona de conforto. A língua deve servir a todas as pessoas, não apenas à maioria.

Não estamos destruindo a língua - estamos a tornando mais rica, mais inclusiva, mais justa. E isso, meus amigos, é uma evolução que vale a pena abraçar.

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Sabes o que é curioso nisto? Ontem fui ao café e pedi um "café com leite" - nem masculino nem feminino, simplesmente café. E adivinha? O empregado percebeu na mesma! Não precisei dizer "café com leitx" para ser compreendido.

Isto faz-me lembrar uma vez que a minha avó, com 87 anos, me perguntou porque é que agora os meninos dizem "amigues". Respondi-lhe que era para incluir toda a gente. Ela olhou para mim e disse: "Mas nós já dizíamos 'amigos' para todos, não?" E pára! A minha avó, sem doutoramento nenhum, percebeu o que muita gente complicada não quer ver.

Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos não ando a inventar palavras que nem o corretor ortográfico reconhece. É tão absurdo quanto tentar fritar gelo! A língua portuguesa tem séculos de evolução natural, carregada de história, poesia, alma. E agora querem transformá-la num manual de IKEA onde tudo tem que caber em caixinhas iguais?

A minha vizora não-binária, a Joana - que agora quer ser chamada de Joane - diz-me que se sente excluída quando uso "ela". Mas eu pergunto: quando digo "a mesa" ou "o sol", alguém pensa que a mesa ou o sol têm género? A língua tem género gramatical, não é uma questão de identidade!

E depois há aquela confusão toda... "Todes" ou "todxs"? Porque uns usam X, outros usam E, outros inventam símbolos que parecem password de Wi-Fi. Se isto é para ser inclusivo, porque é que está a excluir toda a gente que não tem mestrado em estudos de género?

A verdade é que quando começamos a passar mais tempo a decifrar como escrever do que a ouvir o que se está a dizer, a comunicação morre ali mesmo. E a comunicação, meus amigos, é o que nos torna humanos.

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A sua avó tem razão quando diz que "amigos" já incluía todos - mas será que realmente incluía? Ou será que simplesmente assumíamos que sim? Eu também cresci achando que o masculino era universal, até perceber que essa suposta neutralidade invisibiliza milhões de pessoas.

Quando diz que "a mesa" e "o sol" não têm género, está correto - mas as pessoas têm. E é sobre pessoas que estamos a falar. A linguagem neutra não quer mudar o género das coisas, quer reconhecer a identidade das pessoas.

Quanto à confusão entre "todes" e "todxs", isso é natural numa fase de transição. Todas as mudanças linguísticas começam com variações até se estabilizarem. O importante é a intenção: queremos incluir.

Sabe, eu também já me senti confusa com estas mudanças. Mas depois conheci pessoas cuja existência era negada pela linguagem tradicional, e percebi que o desconforto temporário vale a dignidade permanente.

A comunicação não morre quando nos esforçamos para incluir - morre quando insistimos em excluir. E eu prefiro errar pelo excesso de empatia do que pela falta dela.

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Mas olha, deixa-me contar-te uma coisa. O outro dia estava no supermercado e ouvi uma miúda de 8 anos perguntar à mãe: "Mãe, porque é que o senhor lá diz 'menin@s'?" A mãe ficou 5 minutos a tentar explicar e no fim a miúda disse: "Então posso dizer 'pessoas'?" Boom! Resolvido. Às vezes as crianças são mais espertas que nós todos.

Isto faz-me lembrar quando mudaram o nome da rua do meu bairro. Passou-se um ano e toda a gente continuava a dizer "vou ali à antiga rua do Comércio". Porque é que? Porque a língua não se impõe de cima para baixo, ela flui naturalmente. Quando forças, ela empurra-te de volta.

Não estou a dizer que não existem pessoas não-binárias - existem e merecem respeito como toda a gente. Mas será que precisamos de reinventar uma língua inteira para isso? A minha amiga Ana, que é não-binária, prefere que use simplesmente o nome dela. "Ana vai ao cinema". Pronto. Não precisa de "Anx vai ao cinemx". Ela própria diz que isto é tão artificial como peruca em careca.

E depois pensa nisto: quando um brasileiro diz "você" e um português diz "tu", ninguém morre. A comunicação continua. Mas quando alguém diz "todes", metade das pessoas fica à espera da tradução. Estás a ver onde quero chegar?

A linguagem é como a água: se lhe metes uma pedra no meio, ela desvia-se mas continua a correr. Agora se lhe metes uma barragem gigante, cria-se um lago artificial. E ninguém quer viver num lago artificial, quer?

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A criança do supermercado tem razão - "pessoas" é uma solução simples. Mas e quando precisamos de pronomes? De artigos? De adjetivos? A língua portuguesa não nos deixa escapar tão facilmente do binário de gênero.

Sua amiga Ana tem todo o direito de preferir que usem apenas seu nome. Mas e as pessoas que querem ser chamadas por pronomes neutros? O respeito significa honrar as preferências de cada um, não impor uma solução única.

Quanto à comparação com a água - concordo plenamente. A língua é fluida, sim. E a linguagem neutra é exatamente essa corrente natural que está surgindo das necessidades reais das pessoas. Não é barragem artificial - é o rio encontrando novo caminho.

Eu também já pensei que essas mudanças eram desnecessárias. Mas depois percebi que o conforto da tradição não justifica o desconforto de quem se sente excluído. A língua sempre evoluiu - e sempre houve resistência. Lembra-se quando se discutia se "email" deveria ser "correio eletrônico"?

O importante é que estamos tentando. Errando, acertando, ajustando. Mas tentando incluir mais pessoas. E no final, isso é que faz uma sociedade verdadeiramente humana.

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Ó Ferreira, sabes o que é que me mata nesta conversa toda? É que estás a falar como se a língua fosse um código de programação que se atualiza com patch. "Pessoas não-binárias precisam de pronomes neutros" - mas precisam mesmo? Ou é que estamos a criar uma necessidade onde não existia?

Isto faz-me lembrar quando a minha tia decidiu que era vegana e começou a chamar ao chouriço de "proteína vegetal processada". Passado uma semana, estava lá ela a comer bitoque como se nada fosse. Porquê? Porque às vezes a gente complica o que é simples.

Tens razão numa coisa - a língua evolui. Mas evolui como o vinho: com tempo, naturalmente. Não é meter uvas num liquidificador e dizer "pronto, vinho novo!". Quando a minha geração começou a dizer "fixe", os velhos reviravam os olhos. Mas "fixe" nasceu na rua, na boca das pessoas. Ninguém fez campanhas nem workshops para impor "fixe".

E aqui está a diferença: quando alguém me pede para chamar "elu", eu chamo. Por respeito. Mas quando me dizem que tenho que mudar toda a estrutura da língua porque "as pessoas precisam", aí já cheira a imposição. É como aqueles vizinhos que te obrigam a participar na festa deles - mesmo que tenhas diarreia.

A verdade? A maioria das pessoas não-binárias que conheço quer é serem tratadas com decência. Chamadas pelo nome, ouvidas quando falam. Não precisam que eu reinvente o português para se sentirem humanos. São humanos à mesma, pá!