A adoção do sistema de cotas raciais em universidades públicas promove justiça social ou gera mais divisão?
RaminhosSabes o que é curioso nisto? O Ferreira fala de meritocracia como se fosse um jogo de Monopoly onde toda a gente começa com os mesmos 1500 euros. Mas eu cá não vi nenhum preto ou cigano a nascer com um "passa pela faculdade" na mão.
Isto faz-me lembrar uma vez que o meu filho me perguntou por que é que o vizinho tinha mais brinquedos que ele. E eu tive de explicar que o pai do vizinho herdou a casa e o negócio do avô, enquanto o pai dele herdava dívidas e preconceito. É assim tão simples.
Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos percebo que quando uma pessoa tem de trabalhar desde os 14 anos para ajudar em casa, não compete em pé de igualdade com quem teve explicações desde o jardim-de-infância. É tão óbvio quanto dizer que não se pode correr uma maratona com uma perna partida.
E esta conversa de "gerar divisão"? Por favor! A divisão já existia, pá. Era só que estava bem escondida atrás de portões fechados e mensalidades que custavam mais que o salário mínimo. As cotas não criaram o problema, só mostraram que ele existia.
É como aquele tio que diz que não há racismo em Portugal porque tem um amigo preto. Sim, claro, e eu sou astronauta porque já vi a lua.
FerreiraEu compreendo perfeitamente o teu ponto de vista, e respeito a tua experiência. Mas deixas-me fazer-te uma pergunta: será que ao classificarmos as pessoas pela cor da pele não estamos a criar novas barreiras em vez de derrubar as antigas?
Eu também já estive do outro lado. Sei o que custa lutar por oportunidades. Mas acredito que a verdadeira mudança vem quando investimos na base - em escolas públicas de qualidade, em apoio às famílias mais carenciadas, em programas de tutoria que preparem todos os estudantes para competir em igualdade.
Quando criamos categorias raciais, estamos a dizer a jovens talentosos que a sua cor define as suas capacidades. E isso, para mim, é uma forma subtil de preconceito. Conheci demasiados jovens brilhantes de todas as origens que merecem ser avaliados pelo seu mérito, não pela sua etnia.
A verdadeira justiça social não se faz através de atalhos que dividem a sociedade. Faz-se através de um trabalho profundo que dá ferramentas reais para o sucesso. Se não formos nós a lutar por uma sociedade verdadeiramente igualitária, quem o fará?
E quanto à meritocracia - ela só funciona quando todos têm acesso às mesmas oportunidades desde o início. O problema não está no conceito, está na implementação. Em vez de baixarmos a fasquia, devemos é garantir que todos conseguem saltar à mesma altura.
RaminhosÓ Ferreira, olha que eu até te dou razão numa coisa - as escolas públicas deviam ser todas boas, isso é verdade. Mas sabes o que é curioso? Dizes isso como se fosse escolher entre arranjar as escolas ou ter cotas. É como dizer "em vez de pôr penicilina, vamos esperar que o sistema imunitário melhore sozinho". Entretanto, o gajo morre.
Isto faz-me lembrar quando o meu avô dizia "os pretos deviam era estudar mais". Pois é, avô, mas quando a escola mais próxima fica a 20 km e não há transporte, estudar mais é um bocado difícil. A não ser que aches que eles deviam nascer com asas.
E esta história de "a cor não define as capacidades" - claro que não! Mas durante 500 anos a cor definiu exactamente as oportunidades. Agora que chegámos à festa, querem mudar as regras do jogo? É como convidar alguém para jantar às 22h e depois queixar-se que ele chegou tarde.
Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos percebo que meritocracia sem igualdade de oportunidades é como corrida de carros onde uns andam de Ferrari e outros de bicicleta. E depois admiram-se quando o gajo da bicicleta chega suado.
E quanto a "baixar a fasquia" - oh pá, a fasquia está tão alta para alguns que nem a veem. As cotas não baixam nada, só garantem que quem nunca teve hipótese de chegar perto da fasquia agora possa pelo menos tentar saltar.
FerreiraPercebo a tua analogia, mas a penicilina só funciona quando diagnostica corretamente a doença. E será que o problema é realmente a cor da pele ou são as condições socioeconómicas?
Eu já vi jovens de todas as origens superarem adversidades impressionantes através do mérito e do trabalho árduo. A mensagem que queremos passar é que eles são capazes por si mesmos, não que precisam de um tratamento especial baseado na sua aparência.
Quando criamos sistemas separados, estamos a alimentar a ideia de que uns não conseguem competir em igualdade com os outros. E isso, para mim, é profundamente prejudicial para a autoestima e para a coesão social.
O verdadeiro investimento deve ser em criar condições para que todos, independentemente da sua origem, tenham acesso a educação de qualidade desde cedo. Assim não precisamos de criar categorias que, no fundo, perpetuam o mesmo pensamento racial que dizemos combater.
Se não formos nós a acreditar no potencial de cada jovem para superar barreiras através do seu próprio mérito, então que mensagem estamos a passar? Que a cor da pele é mais importante do que o carácter e a capacidade?
RaminhosÓ Ferreira, mas tu achas mesmo que eu acredito que o problema é a cor da pele? Sabes o que é curioso nisto? É que tu próprio estás a misturar alhos com bugalhos. As cotas não são sobre a cor ser o problema, são sobre a cor ter sido usada como desculpa para criar o problema durante séculos.
Isto faz-me lembrar quando o meu pai dizia "não tens de me agradecer, filho" - mas eu agradecia na mesma, porque sabia que ele tinha abdicado de coisas para eu ter oportunidades. As cotas são isso: uma forma de a sociedade dizer "desculpa lá ter-te fodido durante 500 anos, deixa lá tentar compensar".
E esta conversa de "sistemas separados" - mas que separados? Estão a entrar na mesma faculdade, pá! Não é uma universidade para pretos e outra para brancos. É a mesma merda de faculdade, só que garantem que não fica tudo branco como leite azedo.
Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos percebo que quando um gajo nasceu na cova, não é justo esperar que ele cave tão rápido como quem nasceu no topo da montanha. E não, isso não significa que ele é menos capaz - significa que precisa de uma mão para começar a subir.
A mensagem que passamos não é "vocês não conseguem sozinhos", é "finalmente vamos parar de vos empurrar para baixo".
FerreiraEu entendo a tua paixão, mas será que ao oferecer essa "mão" baseada na raça não estamos a criar uma nova forma de dependência? Eu acredito que a verdadeira reparação vem através do empoderamento real, não de classificações que reduzem as pessoas à sua cor de pele.
Já trabalhei com jovens de todas as origens que me mostraram que o potencial não tem cor. O que precisamos é de investir em programas que realmente preparem esses jovens para competir em condições de igualdade, não de criar atalhos que podem ser vistos como favoritismo.
Quando dizemos que alguém precisa de uma categoria especial para entrar na universidade, mesmo que bem intencionado, estamos a enviar uma mensagem perigosa: que eles não são capazes de competir pelos seus próprios méritos. E isso pode ser mais prejudicial do que helpful a longo prazo.
A verdadeira justiça social não se faz através de sistemas que separam, mas sim através de oportunidades reais que unem. Se não formos nós a lutar por uma sociedade onde todos são julgados pelo seu carácter e capacidade, então estamos a falhar na construção do futuro que todos merecemos.