O investimento em escolas técnicas e profissionalizantes em detrimento do ensino universitário tradicional é a melhor estratégia para o desenvolvimento nacional?
FerreiraEu compreendo a preocupação do Raminhos com a produção de conhecimento de ponta, mas quero lembrar que não estamos falando de eliminar as universidades, mas de dar prioridade ao que o país mais precisa neste momento.
Eu já estive do outro lado - conheço jovens talentosos que terminaram cursos superiores e não encontraram colocação no mercado. Enquanto isso, setores essenciais como a indústria, construção, turismo e saúde continuam com carências graves de mão de obra qualificada.
O ensino técnico não é um plano B, é uma solução estratégica. Em apenas dois anos formamos profissionais prontos para ocupar vagas que hoje estão em aberto, reduzindo o desemprego juvenil que atinge níveis alarmantes.
E não subestimemos a capacidade inovadora do ensino técnico! São esses profissionais que implementam no chão de fábrica, nos hospitais, nas obras, as inovações desenvolvidas nas universidades. Um não vive sem o outro, mas neste momento precisamos equilibrar a balança.
Se não formos nós a preparar os nossos jovens para as reais necessidades do mercado, quem o fará por eles? Precisamos de uma estratégia que una o conhecimento à prática, que transforme qualificação em oportunidade concreta.
RaminhosSabes o que é curioso nisto? É como quando o meu vizinho decidiu vender o carro para comprar uma bicicleta porque a gasolina está cara. Funciona para ir ao pão, mas depois queixa-se que não pode ir visitar a filha a Coimbra.
Isto faz-me lembrar uma vez que fui a uma oficina e o mecânico não conseguia perceber porque é que o carro novo tinha problemas no software. Era um génio a desmontar motores, mas depois ficou ali parado à espera que viesse um engenheiro da marca. O ensino técnico formou-o para desenrascar, mas não para inovar.
Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos percebo que um país não vive só de parafusos e soldas. Precisamos de gente que pense "e se...?" - e não só "como faço isto?". É tão absurdo quanto tentar fritar gelo pensar que vamos competir com a Alemanha só com técnicos de manutenção.
O problema não é ter técnicos - é ter só técnicos. É como uma casa com canalização perfeita mas sem arquiteto. Funciona, mas não evolui. E depois quando aparece uma máquina nova, quem é que a inventa? O técnico que aprendeu a reparar a antiga?
Ouçam, eu conheço um rapaz que fez curso de informática técnica. Arranja computadores que nem um mágico. Mas quando a empresa queria criar uma app nova, tiveram de contratar um gajo do estrangeiro com doutoramento. O nosso rapaz ficou a assistir. É isto que queremos para o país?
FerreiraCompreendo perfeitamente o teu exemplo, mas deixas de fora um detalhe fundamental: esse teu amigo que arranja computadores poderia ter sido formado num ensino técnico de qualidade superior, com capacidades para desenvolver apps e não apenas reparar equipamentos.
Eu também já estive nessa posição - a pessoa que assiste em vez de participar ativamente. Mas hoje digo-te: se não formos nós a criar oportunidades para esses talentos se desenvolverem aqui, continuaremos a importar soluções e a exportar a nossa mão de obra qualificada.
O ensino técnico moderno não se resume a parafusos e soldas. Estamos a falar de cursos em robótica, inteligência artificial, energias renováveis - áreas onde Portugal tem potencial para ser líder, mas onde faltam profissionais.
E sabes qual é a beleza do ensino técnico? Ele não fecha portas, abre-as! Um jovem pode começar como técnico, ganhar experiência, e depois especializar-se na universidade com uma base prática que muitos estudantes não têm.
Não é sobre escolher entre pensadores e fazedores - é sobre criar pensadores que fazem e fazedores que pensam. E neste momento, o nosso mercado está a gritar por mais fazedores qualificados.
RaminhosÓ Ferreira, mas tu estás a falar de ensino técnico como se fosse um Transformer que vira universitário! Na vida real, quando o rapaz está a ganhar 800 paus por mês como técnico, não vai ter tempo nem dinheiro para ir para a universidade. É como eu dizer que vou começar por ser empregado de mesa e depois torno-me neurocirurgião.
Sabes o que é curioso? Estás a criar uma falsa escolha. É como o meu sogro que diz "ou comes sardinha ou comes carne" - mas esquece-se que podemos comer os dois! O problema não é ter mais técnicos, é retirar dinheiro às universidades para meter nas escolas técnicas.
Isto faz-me lembrar quando a minha avó arranjou a torradeira nova e guardou o forno antigo no sótão. Passado um mês, a torradeira estragou-se e ela ficou sem pão torrado nem bolo. É isto que estamos a fazer ao país - arrumar as universidades no sótão.
E não me venhas com histórias de robótica e IA em cursos técnicos. Conheço esses cursos - ensinam a programar um braço robótico, mas não ensinam a criar um braço robótico novo. É a diferença entre usar o Instagram e inventar o Instagram.
Não estou a dizer que não precisamos de técnicos. Precisamos! Mas precisamos é de universidades que formem quem inventa as máquinas que os técnicos vão depois reparar. Se não, vamos continuar a ser o país que repara o que os outros inventam.
FerreiraO teu exemplo da torradeira é interessante, mas revela um equívoco fundamental: não estamos a propor guardar o forno no sótão, mas sim a usar ambos de forma inteligente.
Eu conheço demasiados casos de jovens que terminaram licenciaturas e mestrados e hoje trabalham em call centers. Enquanto isso, empresas de tecnologia portuguesas não conseguem preencher vagas de técnicos especializados que pagam o dobro.
Não se trata de transformar técnicos em universitários, mas de dar dignidade e valor real à formação técnica. Um técnico altamente qualificado em energias renováveis ou cibersegurança pode ganhar muito mais que muitos licenciados - e isso é que é verdadeira mobilidade social.
E quero desfazer um mito: o ensino técnico de qualidade inclui sim componentes de inovação e desenvolvimento. Não estamos a formar pessoas apenas para reparar, mas para melhorar, adaptar e criar soluções dentro das suas áreas.
O desenvolvimento nacional não se faz apenas com grandes invenções, mas com a capacidade de implementar, manter e melhorar tecnologias. E isso exige uma base técnica sólida que temos negligenciado durante décadas.
Portugal precisa de ambos, mas neste momento o desequilíbrio é tão grande que precisamos de corrigir o rumo. Não é sobre escolher entre sardinha ou carne - é sobre garantir que temos pescadores e agricultores em quantidade suficiente.
RaminhosÓ Ferreira, mas tu estás a falar como se Portugal fosse uma oficina gigante! "Precisamos de pescadores e agricultores" - pois precisamos, mas quem é que vai descobrir novas espécies de peixe ou criar sementes que resistem à seca? O técnico que aprendeu a pescar ou o cientista que estudou biologia marinha?
Sabes o que é curioso? Estás a confundir emprego com desenvolvimento. É como dizer que porque há muitas vagas para empregadas de limpeza, devíamos formar mais empregadas de limpeza. Sim, resolve o desemprego, mas não desenvolve o país.
Isto faz-me lembrar quando o meu primo abriu uma pastelaria porque "havia falta de pastéis de nata". Trabalha 16 horas por dia, ganha bem, mas agora queixa-se que não tem tempo para inovar. Faz as mesmas natas que toda a gente faz. É isto que queremos para a nossa economia?
E não me venhas com técnicos de cibersegurança a ganhar mais que licenciados. Conheço esses técnicos - ganham bem porque estão a tapar buracos que universidades de outros países criaram. Estamos sempre a correr atrás do prejuízo.
O verdadeiro problema é este: quando investimos só no técnico, criamos um país bom a copiar e a reparar. Mas quem é que cria o que vem a seguir? Os nossos jovens vão continuar a emigrar não porque não têm emprego, mas porque não têm desafios. É como treinar um génio da matemática para ser caixa de supermercido - funciona, mas é desperdício.