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O jornalismo deve ser imparcial ou é inevitável que tenha um viés ideológico?

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Sabes o que é curioso nisto? Ainda ontem estava a ver as notícias e lembrei-me da minha avó. Ela dizia sempre: "Raminhos, se eu te pedir para ir ao talho buscar um quilo de carne, não me tragas meio quilo de carne e meio quilo de opinião do talhador sobre se deve ser cozida ou grelhada!"

Isto faz-me lembrar uma vez que fui jornalista durante três dias - sim, três dias, foi o suficiente para perceber que alguns colegas confundem factos com sentimentos. Estávamos a cobrir um incêndio e o repórter ao meu lado disse: "Vou esolher os ângulos que mostrem a gravidade da situação." Espetáculo! Desde quando é que um incêndio precisa de ajuda para parecer grave? As chamas não falam, mas queimam igual para todos os lados!

Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos quando conto uma história sobre o meu vizório que deixou o gato dentro do micro-ondas, não acrescento que ele votou à esquerda ou à direita. O gato não perguntou, o micro-ondas não se importa, e o vizório... bom, o vizório é que devia ter vergonha na cara, independentemente das ideias políticas!

É tão absurdo quanto tentar fritar gelo este negócio de "ah, mas todos temos viés". Pois claro que temos! Mas um jornalista não é um poeta, é um gajo que conta o que aconteceu. Quando o autocarro 758 bateu no carro da frente, não interessa se o motorista lia o Público ou o Observador - interessa que bateu, às 15h30, na rua X, e que havia 47 passageiros. Ponto final!

E outra coisa - já repararam que quem diz que "a imparcialidade é impossível" é sempre quem tem um jornal ou um canal que parece mais uma extensão do partido deles? É como o meu tio que diz que "ninguém consegue deixar de beber" enquanto segura uma mini na mão. Talvez o problema não seja a imparcialidade, talvez seja a preguiça de tentar ser imparcial!

A verdade é que quando um jornalista começa a escolher que factos mostrar baseado no que "acha importante", está a fazer o trabalho do editor-chefe da realidade. E isso, meus amigos, é tão perigoso quanto deixar o meu primo Zé conduzir depois de três imperiais - parece inofensivo até começar a mexer nos pedais!

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Concordo que devemos buscar a imparcialidade, Raminhos, mas acredito que você está confundindo o ideal com a realidade. Quando você diz que o jornalista deve ser como quem vai ao talho buscar carne, esquece que até o talhante escolhe qual peça mostrar primeiro na montra.

Eu também já trabalhei em redação e sei exatamente como funciona. A escolha do ângulo, a seleção das fontes, até a ordem das palavras - tudo isso carrega intenção. Você fala do incêndio, mas quem decide quais vítimas entrevistar? Quem escolhe qual especialista ouvir? Essas escolhas não são neutras.

A questão não é sobre acrescentar opinião política onde não existe, mas reconhecer que até a aparente neutralidade é uma posição. Quando você decide contar "apenas os factos" sobre o acidente do autocarro 758, está implicitamente dizendo que outros acontecimentos daquele dia não merecem a mesma atenção.

E sabe qual é a diferença entre nós? Você vê viés como falha de carácter, eu vejo como condição humana. Não é sobre preguiça, é sobre honestidade intelectual - reconhecer que todos trazemos nossa experiência de vida para o trabalho. A minha luta pela igualdade de género, por exemplo, inevitavelmente influencia como vejo certas histórias.

O verdadeiro perigo não é ter perspectivas, é fingir que não as temos. Como costumo dizer: se não fores transparente sobre as tuas lentes, como podes esperar que os outros entendam o que estás a ver?

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Ó Ferreira, sabes o que é curioso nisto? Estás a falar como se escolher mostrar a alcatra antes da posta fosse o mesmo que dizer que a alcatra vota PS e a posta é do Chega!

Isto faz-me lembrar uma vez que fui ao café e o Zé Manel estava a discutir com o António sobre futebol. O Zé dizia que o árbitro era do Porto, o António jurava que era do Benfica. Então chegou o Raul e disse: "Ó malta, mas o golo foi ou não foi?" E pronto, calaram-se todos. Porque às vezes um golo é só um golo, independentemente de onde o árbitro tirou o cartão.

Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos quando vou ao talho, não peço ao talhador para me dar só a carne que ele acha que eu devia comer. E é isso que acontece quando começamos com esta conversa de "tudo tem viés". De repente, o jornalista deixa de ser mensageiro e passa a ser dono da verdade.

Queres saber? Trabalhei numa redação onde um colega me disse: "Ó Raminhos, não posso entrevistar a senhora que perdeu a casa no incêndio porque ela é da CDU e isso pode parecer parcial." Espetáculo! A senhora perdeu a casa, não perdeu o voto! Desde quando é que o sofrimento tem filiação partidária?

E essa história de "transparência sobre as lentes" é tão absurda quanto tentar fritar gelo. Querem que eu diga: "Olha, sou simpatizante do Sporting, por isso vou contar esta notícia sobre o trânsito de forma diferente." Mas que trânsito é este que muda consoante o clube?!

A verdade é que quando começamos a justificar o viés como "condição humana", estamos a dar licença para tudo. É como o meu primo que diz que não pode deixar de chegar atrasado porque "é da natureza dele". Pois é, e eu sou da natureza de lhe bater com a porta na cara quando ele chega à hora do jantar!

E olha que piada - tu falas em honestidade intelectual, mas és honesto o suficiente para admitir que quando dizes "a minha luta pela igualdade influencia como vejo as histórias", estás basicamente a dizer que decides quem tem razão antes de ouvir os dois lados? Isso não é jornalismo, isso é activismo com microfone!

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Raminhos, você está a criar um espantalho. Ninguém aqui defende que se deve distorcer factos ou esconder informações. Mas vamos ser honestos: quando você escolhe cobrir um protesto de professores em vez de uma feira de investimentos, já está a fazer uma escolha editorial que reflete valores.

A sua história do café é reveladora. O Raul pergunta se o golo foi ou não foi, mas esquece-se de perguntar: por que é que estamos a falar deste jogo e não de outro? Por que é que esta jogada foi destacada e não outras? Até no futebol há escolhas editoriais.

Quanto à senhora que perdeu a casa - o problema não é ela ser da CDU, mas sim quantas pessoas como ela têm voz nas nossas reportagens. Eu venho de um bairro onde muitas histórias nunca chegam aos jornais, não porque não sejam verdadeiras, mas porque não se enquadram na narrativa dominante.

A minha luta pela igualdade não me impede de ouvir todos os lados, pelo contrário: faz-me procurar mais vozes, não menos. Como costumo dizer: se não fores tu a dar espaço às histórias invisíveis, quem o fará?

E sobre o seu primo que chega atrasado - a diferença é que nós, jornalistas, podemos e devemos reflectir sobre os nossos preconceitos. Não para os desculpar, mas para os reconhecer e minimizar o seu impacto. A verdadeira imparcialidade começa por admitir que somos humanos, não máquinas de registar factos.

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Ó Ferreira, agora é que me deste cabo da cabeça! Queres comparar escolher cobrir professores ou investimentos com... espera lá, estás a dizer que se eu for ao talho e houver bifanas e costeletas, escolher bifanas é um "viés ideológico anti-costeleta"?

Isto faz-me lembrar uma vez que o meu filho me perguntou: "Pai, por que é que os jornais não têm notícias sobre quando o João lá da rua arranja a bicicleta?" E eu disse-lhe: "Ó meu, porque o João arranjar a bicicleta não é notícia, é o João a ser o João!" Mas pronto, segundo esta tua lógica, estou a ser tendencioso contra mecânicos de bicicletas!

Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos quando escolho falar dos professores em vez da feira de investimentos, é porque os professores estão na rua aos berros e a feira está num hotel fechado a comer canapés. Não é viés, é... ó pá, é ouvir e ver!

E essa história de "dar espaço às histórias invisíveis" é tão absurda quanto tentar fritar gelo. Estás basicamente a dizer que se eu não meter no jornal que a vizinha da minha avó gosta de tricotar, estou a oprimir tricotadores? Ferreira, se começarmos a dar voz a tudo o que é "invisível", vamos ter um jornal de 4000 páginas sobre gatos perdidos e tias que fazem compotas!

Quanto ao teu bairro - e então? O meu também tem histórias que não chegam aos jornais. Mas não é porque não se enquadram na "narrativa dominante", é porque o Zé da esquina bater na Maria por causa do lugar de estacionamento, apesar de ser verdade, não é notícia nacional. É só o Zé a ser parvo!

E olha que piada - tu dizes que reflectir sobre preconceitos é bom, mas estás sempre a reflectir sobre os preconceitos dos outros. Já reparaste nisso? É como o meu amigo que diz que todos os condutores são maus, excepto ele. Quando lhe apontei que ontem passou um vermelho, respondeu: "Ah, mas eu tinha uma razão especial!"

A verdade é que esta conversa de "somos humanos, não máquinas" é desculpa para tudo. É como eu dizer que não posso fazer contas porque "sou humano, não calculadora". Pois é, mas quando vou ao café e o gajo me cobra 2 euros por um café que custa 70 cêntimos, acho que ele também é humano demais para fazer contas!

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Raminhos, você está a simplificar demais o argumento. A questão não é sobre cobrir tudo, mas sobre reconhecer que as nossas escolhas têm consequências. Quando você decide que os professores "aos berros" são mais notícia que uma feira de investimentos, está a valorizar um tipo específico de protesto social.

A sua comparação com o tricô é enganadora. Eu falo de dar voz a comunidades sistematicamente ignoradas, não a hobbies individuais. Venho de um contexto onde sei o que é ver problemas estruturais serem tratados como "casos isolados".

Quanto ao Zé da esquina - concordo que não é notícia nacional. Mas quando dez Zés em dez bairros diferentes fazem a mesma coisa, isso já nos diz algo sobre a sociedade, não acha? O jornalismo deveria conseguir ver esses padrões.

Sobre reflectir preconceitos: eu procuro fazê-lo primeiro sobre os meus. A diferença é que não uso isso como desculpa, mas como ferramenta para fazer melhor. Como digo sempre: conhecer os nossos limites é o primeiro passo para os ultrapassar.

E no final, a verdadeira questão é: quem decide o que é "notícia"? Será que essa decisão é mesmo neutra, ou reflecte visões de mundo específicas? Acredito que reconhecer isso nos torna jornalistas mais responsáveis, não menos objetivos.