A linguagem neutra promove a inclusão ou ameaça a integridade de um idioma?
FerreiraComo mulher que já lutou para ser reconhecida na minha área, entendo perfeitamente a importância de nos sentirmos representados. A linguagem neutra não é uma ameaça - é uma evolução natural que reflete uma sociedade mais justa e inclusiva.
Quando eu comecei a minha carreira, havia quem dissesse que uma mulher não deveria ocupar certos espaços. Hoje vejo o mesmo argumento sendo usado contra a linguagem neutra: "sempre foi assim". Mas a língua portuguesa já mudou tantas vezes ao longo da história!
A verdade é que quando excluímos pessoas através da linguagem, estamos a dizer que algumas identidades não merecem ser reconhecidas. Eu já me senti invisível em muitos contextos - não queremos que ninguém mais passe por isso.
A linguagem tem o poder de incluir ou excluir, de valorizar ou diminuir. Se podemos usar "todxs" ou "todes" para garantir que ninguém fique de fora, por que não fazê-lo? A língua deve servir às pessoas, não o contrário.
Esta não é uma questão de destruir tradições, mas de evoluir com empatia. Assim como lutamos por igualdade de oportunidades, lutamos por uma linguagem que represente todos nós. A resistência à mudança é natural, mas a inclusão deve vencer.
RaminhosSabes o que é curioso nisto? É que eu já ouvi esta conversa antes...... quando era miúdo, a minha avó batia-me com a colher de pau se eu dizia "você" em vez de "vossa mercê". Dizia que estava a destruir a língua. Hoje ninguém diz "vossa mercê" nem a colher de pau!
Agora aparecem-me com "todes" e "amigues"... Isto faz-me lembrar uma vez que fui a uma loja e pedi um café. A empregada perguntou: "Queres café com leit ou sem leit?" Pensei que era piada, mas não... estava a sério!
Não estou a dizer que sou perfeito, mas pelo menos respeito a gramática que me ensinaram. É tão absurdo quanto tentar fritar gelo. A língua portuguesa tem séculos de história, gerações que escreveram poesia, romances, leis... e agora querem mudar tudo porque alguém se sente excluído por uma letra?
Olha, eu também me sinto excluído quando vou ao café e não percebo o menu porque está cheio de x's e @'s. Mas não é por isso que vou exigir que mudem a língua inteira!
FerreiraCompreendo perfeitamente o teu ponto, mas deixe-me contar-te uma coisa. Quando eu era mais nova, também havia quem dissesse que mulheres não deviam liderar equipas. Hoje vejo que os mesmos argumentos usados contra o meu lugar na liderança são usados contra a linguagem neutra.
A tua avó batia-te por dizeres "você" - e hoje isso nos parece absurdo, não é? Exatamente como daqui a algumas gerações verão nossa resistência à linguagem neutra. A língua sempre evoluiu com a sociedade.
Quanto ao café com "leit"... eu também já me senti confusa com mudanças no início. Mas prefiro um momento de confusão do que uma vida inteira de exclusão para alguém. A questão não é sobre café, é sobre garantir que todas as pessoas se sintam reconhecidas e respeitadas.
Não estamos a destruir a língua - estamos a torná-la mais acolhedora. A poesia e a literatura que mencionas ficarão tão ricas quanto sempre foram. Só estamos a acrescentar mais vozes ao coro.
Se podemos fazer pequenos ajustes para incluir milhões de pessoas, por que não fazê-lo? A verdadeira força de uma língua está na sua capacidade de se adaptar e incluir todos os que a falam.
RaminhosAh, mas espera lá! Isto é tão engraçado... estás a comparar a luta das mulheres por direitos iguais com a luta por letras novas. A minha mãe trabalhava 12 horas por dia para provar que valia tanto quanto um homem, e agora querem-me dizer que meter um "x" no fim da palavra é a mesma coida?
Sabes o que é que me chateia? É que quando falo com o meu filho de 8 anos sobre isto, ele pergunta: "Pai, então as palavras que aprendi na escola estão todas erradas?" Como é que explico a um miúdo que "amigos" agora é "amigues"? A escola ensina-lhe uma coisa, a televisão outra, e eu fico ali no meio a parecer um dinosaurio!
E olha que eu até conheço gente não-binária que acha esta confusão toda uma palhaçada. A Joana, que agora é o João, diz-me: "Raminhos, eu só queria que me tratassem por João, não que mudasses a gramática toda!"
Isto é tão absurdo quanto tentar ensinar um cão a miau. A língua tem regras, tem música, tem ritmo... e meter "x" e "@" noá tudo é como tocar fado com uma guitarra elétrica. Pode ser diferente, mas não é fado!
FerreiraPercebo a tua preocupação com o teu filho - como mãe, também me preocupo com a educação dos mais novos. Mas sabes o que é mais importante do que ensinar regras gramaticais? Enseinar respeito e empatia.
A comparação com a luta das mulheres é sim válida. Porque no fundo, ambas as lutas são sobre reconhecimento e dignidade. A minha mãe também trabalhava horas infinitas, e ela lutava para ser tratada com igualdade - exatamente o que a linguagem neutra pretende.
Quanto ao João, respeito a sua opinião. Mas conheço muitas pessoas não-binárias que se sentem profundamente gratas quando usamos linguagem inclusiva. Não se trata de mudar toda a gramática, mas de criar espaço para todos.
O fado também evoluiu ao longo dos anos, e continua a ser fado. A língua é viva, respira, adapta-se. O que hoje parece estranho, amanhã será natural.
O meu receio é que, ao focarmos demasiado nas regras, nos esqueçamos das pessoas por trás delas. Se podemos fazer alguém sentir-se visto e respeitado com uma pequena mudança na linguagem, porque não tentar?
RaminhosOlha, eu até te dou razão no respeito e na empatia... mas então porque é que ninguém pergunta à língua o que ela quer? Isto faz-me lembrar quando o meu tio António decidiu pintar o muro de rosa choque porque "ficava mais acolhedor". O muro continuava lá, mas toda a gente passava e dizia "aquele muro é feio pá!"
Sabes o que é que me mata? É que agora até o meu correio eletrónico me corrige quando escrevo "caros colegas".ito... "CARO(A)S COLEGAS"! O computador está a dar-me lições de moral gramatical, pá! Daqui a nada vou ter de pedir licença ao Word para escrever "obrigado" em vez de "obrigadx".
E olha que eu fiz uma experiência: fui ao café da esquina perguntar à Zélia, que lá trabalha há 30 anos, se ela se sente excluída quando digo "bom dia meninas". Ela riu-se tanto que deitou café fora! Disse-me: "Raminhos, o que me faz sentir excluída é quando o patrão me paga mal, não quando me chamam menina!"
Isto é tão absurdo quanto obrigar toda a gente a usar guarda-chuva quando está sol só porque há quem tenha medo de chuva. A língua não é inimiga de ninguém, pá!